Quem foi Jesus?

Foi um dia de trabalho como outro qualquer. Depois da festa da Páscoa do ano 3790 do calendário hebraico, a maioria dos camponeses seguia sua rotina normalmente, assim como os coletores de impostos, os pescadores, os soldados romanos, os carpinteiros, os sacerdotes e as prostitutas. Em Jerusalém, contudo, algumas pessoas deviam estar comentando o tumulto do dia anterior, que resultou na morte de um judeu. Nada que não estivessem acostumados a ouvir. Naquele tempo, a cidade já era palco de conflitos político-religiosos sangrentos e quase sempre algum agitador morria por incitar a rebelião contra os romanos, que governavam a região com o apoio da elite judaica do templo de Jerusalém.

Dessa vez, o fuzuê foi causado por um judeu camponês chamado Yeshua, que foi aprisionado e condenado à morte por ter desafiado o poder romano e o templo de Jerusalém em plena Páscoa. "Se você quisesse chamar a atenção de multidões para as suas idéias, essa era a data ideal", afirma Richard Horsley, professor de Ciências da Religião na Universidade de Massachusetts e autor do livro Bandidos, Profetas e Messias – Movimentos Populares no Tempo de Jesus. "A festa tinha um forte conteúdo político, já que comemorava a libertação dos hebreus do Egito, que agora estavam sob o domínio dos romanos." No meio da multidão (imagine a cidade paulista de Aparecida do Norte em dia de peregrinação), pouca gente deve ter se comovido com a prisão e morte de mais um judeu agitador – a não ser um punhado de parentes e amigos pobres.

Mas nem eles poderiam imaginar que a cruz em que Jesus pagou sua sentença (sim, Yeshua é Jesus em hebraico) seria, no futuro, o símbolo mais venerado do mundo. Da suntuosa Basílica de São Pedro, no Vaticano, à pequena igrejinha da Assembléia de Deus, encravada no interior da Floresta Amazônica, a cruz se tornou o símbolo de fé para mais de 2 bilhões de pessoas. Sua morte dividiu, literalmente, a história em antes e depois dele. Mas, afinal, quem foi Jesus?

Pode parecer estranho, mas para os estudiosos há pelo menos dois Jesus. O primeiro, que dispensa apresentações, é o Cristo (o ungido, em grego), cuja história contada pelos quatro evangelistas deixa claro que ele é o enviado de Deus para salvar os homens com a sua morte. Os judeus costumavam sacrificar animais como cordeiros no templo para se purificarem. Ao morrer na cruz, Cristo torna-se o símbolo do cordeiro enviado por Deus para tirar o pecado do mundo.

O outro Jesus, já citado no início da matéria, é Yeshua, o homem que morreu sem chamar muita atenção dos cidadãos do Império Romano. Além dos evangelhos – que não podem ser considerados fontes imparciais de sua vida, já que foram escritos por seus seguidores – há apenas uma menção direta a ele citada pelo historiador judeu Flávio Josefo, que escreve sobre sua morte no livro Antiguidades Judaicas, feito provavelmente no fim do século 1. Para os pesquisadores, essa falta de citações seria um indício da pouca repercussão que Jesus teria tido para os cronistas da época. "Se existisse um grande jornal em Israel no tempo de Jesus, sua morte provavelmente seria noticiada no caderno de polícia, e não na primeira página", diz John Dominic Crossan, professor de Estudos Religiosos da Universidade De Paulo, em Chicago, Estados Unidos.

Autor dos livros O Jesus Histórico – A Vida de um Camponês Judeu no Mediterrâneo e Excavating Jesus – Beneath The Stones, Behind The Texts ("Escavando Jesus – Por Baixo das Pedras, Por Trás dos Textos", inédito no Brasil), ele diz que a escassez de fontes diretas sobre Jesus não significa que seja impossível recompor a vida do homem de carne e osso que morreu em Jerusalém. "A interpretação correta dos textos históricos e a arqueologia estão trazendo surpreendentes revelações sobre o Jesus histórico."

Uma dessas revelações pode estar contida numa pequena caixa de pedra cor de areia encontrada em Jerusalém com uma inscrição feita em língua e caligrafia de 2 mil anos atrás. Ao lê-la em aramaico, da direita para esquerda, como a maioria das línguas semitas, está escrito inicialmente "Yaákov, bar Yosef", ou seja: Tiago, filho de José. E continua, mais desgastada, "akhui di..." irmão de "Yeshua", Jesus. Isso mesmo. Segundo André Lemaire, especialista em inscrições do período bíblico da Universidade de Sorbonne, em Paris, há uma alta probabilidade de que a caixa tenha sido usada como ossário de Tiago (São Tiago, para os católicos), o mesmo do Novo Testamento, já que a possibilidade que a associação entre esses três nomes seja uma referência a outras pessoas é estatisticamente baixa.

Apesar de não ter sido encontrada num sítio arqueológico (como foi comprada por um colecionador num antiquário, as chances de fraude seriam maiores), ela poderá se tornar a primeira evidência material associada a Jesus. "Caso fique provado que a inscrição é verdadeira, a descoberta levantará uma série de novas questões", diz Crossan. "Vamos ter que nos perguntar, por exemplo, se termos como irmão e pai significam exatamente o mesmo que hoje: pai e irmão de sangue.

Apesar de o Evangelho de São Mateus, no capítulo 13, versículos 55-56, citar: "Porventura não é este o filho do carpinteiro? Não se chamava sua mãe Maria, e seus irmãos Tiago, e José, e Simão, e Judas: e suas irmãs não vivem elas todas entre nós?", a Igreja sempre pregou aos fiéis que irmão e irmã, nesse caso, significavam apenas primos ou um forte vínculo de amizade e companheirismo entre os que faziam parte de um grupo.

"Como esse é um campo cheio de fé e paixões, a busca do Jesus histórico sempre foi um desafio", diz André Chevitarese, professor de História Antiga da Universidade Federal do Rio de Janeiro e um dos maiores especialistas sobre o tema no país. "Enquanto um religioso conservador ressalta a dimensão espiritual de Jesus, um teólogo da libertação vai buscar nele sua atuação como revolucionário político."

Mesmo que a diversidade de visões de Jesus seja proporcional ao número de igrejas, correntes e seitas que existem em seu nome, historiadores e arqueólogos estão conseguindo reconstituir como era o mundo em que ele vivia: um retrato fascinante da política, da religião, da economia, da arquitetura e dos hábitos cotidianos que devem ter moldado a vida de um homem bem diferente daquele retratado pelas imagens renascentistas que povoam a imaginação da maioria dos cristãos. A começar pela aparência. Baseados no estudo de crânios de judeus que viviam na região na época, os pesquisadores dizem que a fisionomia de Jesus deveria ser mais próxima da de um árabe moderno, como na imagem que abre essa reportagem. "Em tempos turbulentos como o de hoje, ele provavelmente teria dificuldades de passar pela alfândega de um aeroporto europeu ou americano", diz Chevitarese.

Um Presépio Diferente

Imagine que nesse Natal você pudesse entrar numa máquina do tempo para visitar Jesus recém-nascido (quem conhece o argumento da série Operação Cavalo de Tróia, do escritor J. J. Benítez, sabe que a idéia não é original). Se isso fosse possível, os arqueólogos garantem que você teria algumas surpresas. A primeira delas teria relação com a data da viagem. Ao programar a engenhoca para o ano zero, provavelmente você iria se deparar com um menino de quatro anos. É que Jesus deve ter nascido no ano 4 a.C. – o calendário romano-cristão teria um erro de cerca de quatro anos. Tampouco adiantaria chegar em Belém no dia 25 de dezembro. Em primeiro lugar, porque ninguém sabe o dia e a data em que Jesus nasceu. O mês de dezembro foi fixado pela Igreja no ano 525 porque era a mesma época das festas pagãs de Roma.

E o segundo problema, ainda mais grave, é que provavelmente Jesus não nasceu em Belém. "Há quase um consenso entre os historiadores de que Jesus nasceu em Nazaré", diz o padre Jaldemir Vitório, do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte. Então por que o evangelho de Mateus diz que o nascimento foi em Belém? Vitório explica que o texto segue o gênero literário conhecido por midrash. Basicamente, o midrash é um forma de contar a história da vida de alguém usando como pano de fundo a biografia de outras personalidades históricas. No caso de Jesus, ele explica, a referência a Belém é feita para associá-lo ao rei Davi do Antigo Testamento – que, segundo a tradição, teria nascido lá. Mas as associações não parariam por aí.

Assim como o nascimento em Belém, a terrível execução de recém-nascidos ordenada por Herodes e a fuga de Maria e José para o Egito também teriam sido uma "licença poética do texto", dessa vez para simbolizar que Jesus é o novo Moisés – já que essa narrativa é bem semelhante ao que se contava da vida do patriarca bíblico. "Isso não foi uma criação maquiavélica para glorificar Jesus, era apenas o estilo literário da época", diz Vitório. Até os simpáticos três reis magos estariam ali para representar que Jesus foi reconhecido como messias por povos do Oriente – e quase nenhum historiador defende que, de fato, eles tenham existido. (Apesar dos muitos fiéis que visitam todos os anos a Catedral de Colônia, na Alemanha, que acreditam que os restos mortais dos três estão lá.)

Mas se essas passagens são representações e não fatos históricos, o que um viajante no tempo encontraria de semelhante às imagens estampadas nos cartões de Natal? "Jesus deve ter nascido numa casa de camponeses extremamente pobres, cercada de animais", diz Gabriele Cornelli, professor de Teologia e Filosofia da Universidade Metodista de São Paulo. "Cresceu numa das regiões mais pobres e turbulentas da época."

Um Judeu pobre da Galiléia

Um vilarejo de trabalhadores rurais numa encosta de serra com, no máximo, 400 habitantes. Segundo os arqueólogos, essa é a cidade de Nazaré no tempo em que Jesus nasceu. De tão pequena, a vila praticamente não é citada nos documentos da época. "As escavações arqueológicas na cidade não encontraram nenhuma sinagoga, fortificação, basílica, banho público, ruas pavimentadas, enfim, nenhuma construção importante que datasse do tempo de Jesus", diz o historiador John Dominic Crossan. "Em compensação, foram encontradas pequenas prensas de azeitonas para a fabricação de azeite, prensas de uvas para vinho, cisternas de água, porões para armazenar grãos e outros indícios de uma vida agrária de subsistência."

A casa em que Jesus cresceu devia ser como a de todo camponês pobre da época: chão de terra batida, teto de estrados de madeiras cobertos com palha e muros de pedras empilhadas com barro, lama ou até uma mistura de esterco e palha para fazer o isolamento. Ao entrar na casa, talvez alguém lhe oferecesse água tirada de uma cisterna servida num dos muitos vasilhames de pedra e barro achados pelos arqueólogos na região – a água era preciosa, já que a chuva era escassa. Para comer, a cesta básica era formada por pão, azeitona, azeite e vinho e um pouco de lentilhas refogadas com alguns outros vegetais sazonais, servido às vezes no pão (que você deve conhecer como pão árabe). Com sorte, nozes, frutas, queijo e iogurte eram complementos bem-vindos, além de um peixe salgado vez ou outra. Segundo os arqueólogos, a carne era rara, reservada apenas para celebrações especiais.

A maioria dos esqueletos encontrados na região mostra deficiência de ferro e proteínas e sinais de artrite grave. "A mortalidade infantil era alta e a expectativa de vida girava em torno dos 30 anos", diz Crossan. "Só raros privilegiados alcançavam 50 ou 60 anos de idade."

Para garantir o sustento, as famílias precisavam ter um número razoável de filhos que ajudassem no duro trabalho no campo. "É pouco provável que Jesus tenha sido filho único", diz o historiador Gabriele Cornelli. "Assim como um menino de roça que vive em comunidades pobres no interior, ele deve ter crescido cercado de irmãos." Mesmo pesquisadores católicos como o padre John P. Meier, autor dos quatro volumes da série Um Judeu Marginal, sobre o Jesus histórico, dizem que é praticamente insustentável o argumento de que, no Novo Testamento, "irmão" poderia significar "primo". "A palavra grega adelphos, usada para designar irmão, deve ter sido usada no sentido literal", diz Meier. Sua conclusão reforça ainda mais as chances de que o ossário atribuído a São Tiago, irmão de Jesus, possa ser verdadeiro.

E quanto à profissão de Jesus? O historiador Gabriele Cornelli diz que, baseado nas parábolas atribuídas a ele, é muito provável que Jesus tenha sido um camponês. "Sua pregação está repleta de imagens detalhadas da vida agrícola", diz Cornelli. "É quase impossível que esse grau de detalhamento possa ter surgido de alguém que não lidava dia a dia no campo." Mas José não era carpinteiro e seu filho não o teria seguido na profissão?

O professor de Ciências da Religião Pedro Lima Vasconcellos, da PUC de São Paulo, diz que a palavra carpinteiro (tekton) usada no Novo Testamento pode significar também "biscateiro", no sentido de uma classe inferior que faz serviços manuais. "É o que chamamos atualmente do trabalhador pau-pra-toda-obra." Uma das hipóteses levantadas pelos arqueólogos é de que Jesus pode ter trabalhado no campo e, eventualmente, atuado em algumas obras de construção civil. Os arqueólogos descobriram que, a apenas 6 quilômetros de Nazaré, uma série de novos edifícios em estilo greco-romano estava sendo construída na cidade de Séforis. "É possível que Jesus tenha trabalhado lá", diz Vasconcellos. A construção era apenas uma das várias obras que estavam sendo erguidas por Herodes Antipas, governante da Galiléia no tempo de Jesus.

Além das intervenções em Séforis, os edifícios construídos nas cidades de Tiberíades e Cesaréia Marítima (nome dado em homenagem ao imperador Júlio César) tornavam a região cada vez mais parecida com as cidades romanas. "O problema é que todas essas obras representavam um fardo a mais aos camponeses pobres, que já pagavam muitos impostos", diz o historiador Richard Horsley. "Não é à toa que surgiram nesse período vários movimentos populares de contestação ao poder romano, do qual Jesus era mais um representante."

Messias de um novo Reino

Se o rei Herodes Antipas precisasse se candidatar para se manter no poder na Galiléia no tempo de Jesus, seus assessores de marketing o venderiam como o "realizador de grandes obras" e seu slogan provavelmente seria "Herodes faz". No seu governo (4 a.C. a 39 d.C.), enormes palácios foram construídos na Galiléia, muitos deles para abrigar a elite judaica que dominava a imensa massa de judeus pobres na região. O esquema de poder na Galiléia, assim como em outras regiões de Israel, funcionava num sistema de clientela: para reinar, Herodes contava com o apoio dos romanos. Estes, por sua vez, exigiam em troca que ele recolhesse impostos para Roma e se responsabilizasse pela repressão de qualquer movimento de contestação ao poder imperial. Sob essas condições, Roma permitia que os judeus cultuassem o seu Deus único, Javé, em vez de celebrarem as várias divindades do panteão romano.

Estando bom para ambas as partes, o equilíbrio de poder era mantido. "O problema é que apenas os romanos e uma elite sacerdotal judaica eram beneficiados", diz o professor André Chevitarese. "A maioria dos judeus tinha que trabalhar cada vez mais para sustentar essas duas classes."

Ninguém sabe ao certo até que ponto Jesus começou a sua pregação motivado por esse sentimento de injustiça social. Até mesmo porque a tentativa de retratá-lo como um revolucionário político (e não um líder espiritual) parece fazer pouco sentido considerando-se a época em que ele viveu. "Essa distinção de uma consciência política separada da espiritualidade é uma invenção dos pensadores ocidentais modernos, como Maquiavel", diz Chevitarese. "Para os movimentos apocalípticos de então, o modelo de sociedade perfeita é o Reino de Deus, algo que para essas pessoas estava prestes a se concretizar."

Os estudiosos dizem que há uma dificuldade natural de quem vive nas sociedades modernas de entender a verdadeira dimensão da palavra apocalipse na época de Jesus. "Algumas pessoas hoje entendem o apocalipse como um futuro distante, o fim dos tempos que chegará somente quando todos estiverem mortos", diz Paulo Nogueira, professor de Literatura do Cristianismo Primitivo da Universidade Metodista de São Paulo. "Na época de Jesus, os movimentos apocalípticos viam esse futuro como algo para daqui a alguns dias, quando o Reino dos Céus fosse se sobrepor ao Reino da Terra." Enfim, era preciso se preparar logo.

Para os judeus pobres, estava claro que o tal reino terrestre prestes a ruir era aquele formado por Roma, pelos governantes locais e pela elite judaica representada pelo suntuoso Templo de Jerusalém. E o que as pessoas deveriam fazer para se preparar para o advento do novo reino? Um bom começo era ouvir as profecias de um dos mais conhecidos pregadores da época: João Batista. "Naquele tempo, a figura de João Batista era mais importante do que a de Jesus, que somente se tornou uma ameaça a Roma depois da crucificação", diz o historiador John Dominic Crossan. Depois de ouvir suas profecias, as pessoas podiam se preparar para a chegada da nova era submetendo-se a um ritual de imersão na água: o famoso batismo de João Batista.

"Ao entrar e sair da água, as pessoas sentiam-se como se estivessem deixando para trás os pecados e renascendo purificadas para o novo reino de Deus", diz Nogueira. (Não é à toa que algumas igrejas até hoje só batizam o fiel quando ele já é adulto – e tem consciência da força do ato como marca da conversão.)

A maioria dos historiadores acredita que João Batista, de fato, deve ter batizado Jesus adulto. "Afinal, não deve ter sido fácil para os evangelistas explicar por que o messias foi batizado, já que, como enviado de Deus, ele é que devia batizar os outros", diz o historiador André Chevitarese. Mas ele explica que o evangelho logo "resolve" a polêmica ao narrar que, na hora do batismo, a pomba do Espírito Santo aparece sobre Jesus e João Batista diz que ele é que deveria ser batizado.

"As fontes que estão nos ajudando a compreender esses movimentos apocalípticos são os manuscritos do mar Morto", diz Paulo Nogueira. Descobertos em 1947, os manuscritos foram encontrados no convento de Qumran, uma espécie de condomínio de cavernas habitado pelos essênios, grupos de judeus que viviam como monges seguindo uma rígida disciplina de orações e uma dieta rigorosa (leia a reportagem "A doutrina do deserto", na Super de agosto de 2000). "Apesar de os manuscritos não revelarem nada diretamente sobre Jesus, eles mostram como os cultos apocalípticos já estavam disseminados nessa época", diz Nogueira. Há até quem defenda a hipótese de que Jesus tenha tido uma ligação direta com os essênios (veja boxe na pág. 47).

Do que os crentes e céticos parecem não ter dúvida é que o batismo de João Batista foi um divisor de águas na vida de Jesus. A partir dali, ele teria se retirado para o deserto para depois dar início à trajetória de sermões e milagres que o levaria à condenação na cruz.

Milagres subversivos

Se os historiadores e arqueólogos estão conseguindo reconstituir o ambiente físico em que Jesus viveu e até têm bons palpites sobre a veracidade de certas passagens da sua vida, tudo muda da água para o vinho quando o assunto são os milagres. Afinal, como um pesquisador pode estudar objetivamente feitos considerados sobrenaturais?

Uma moda no passado (que até hoje tem muitos adeptos nos Estados Unidos) foi a tentativa de explicar a origem de alguns desses fenômenos como tendo causas naturais. Você provavelmente conhece algumas dessas teses: a estrela de Davi no nascimento de Jesus era na verdade o cometa Halley, Lázaro foi ressuscitado por Cristo porque estava em coma, não havia morrido biologicamente...

"Explicações desse tipo conseguem às vezes ser mais absurdas do que o próprio milagre", diz André Chevitarese. Para ele, em vez de querer esclarecer racionalmente esses fenômenos, o historiador deve manter a mente aberta para entender como as comunidades da época encaravam esses feitos, estudando, por exemplo, qual a noção que se tinha então da doença e da cura.

Os pesquisadores sabem que no tempo de Jesus a doença estava associada à impureza. "A grande preocupação da lei judaica, já prevista em textos como o Levítico, era demarcar o que é puro e o que não é puro", diz o professor Manuel Fernando Queiroz dos Santos Júnior, da Faculdade de Saúde Pública da USP. "E as doenças de pele, as mais visíveis, logo eram associadas à impureza espiritual." Especialista em hanseníase, o professor diz que o que a Bíblia chama de lepra servia para nomear, na verdade, todas as doenças de pele na época, de eczemas a micoses. "Traduzir a palavra sara’at na Bíblia para o termo lepra ou hanseníase é errado", diz o professor. "Quem lê a Bíblia sem atentar para esse detalhe tem a impressão errônea de que existia uma verdadeira epidemia da doença na época de Jesus." O pior é que, graças a esse erro, os leprosos foram segregados por centenas de anos como portadores de uma doença impura.

Segundo os historiadores, essa associação perversa entre doença e impureza (ou pecado) terminava favorecendo a elite judaica do Templo de Jerusalém. "Afinal, para se curar, o doente tinha que pagar mais taxas e oferecer mais sacrifícios no templo", diz Crossan. "Isso gerava para o doente um ciclo interminável de sofrimento e dívidas." O templo era comandado por uma casta sacerdotal que detinha o monopólio de conduzir os fiéis aos rituais de purificação – que, na época, incluíam o sacrifício de animais como cordeiros (quem não tinha posses para tanto, podia sacrificar uma pomba branca comprada no mercado do templo).

Imagine agora o mal-estar que os sacerdotes deviam sentir ao ouvir relatos de que, com um simples toque, um judeu pobre da Galiléia andava curando doentes, declarando, com esse gesto, que a pessoa estava livre dos pecados. "Hoje é difícil de entender como um ato desses era radicalmente subversivo", diz Richard Horsley. Ele diz que Jesus não estava só. "Uma série de outros curandeiros também usavam esse ritual para desafiar o poder do templo naquela época", diz o historiador.

Como Jesus conseguia curar as pessoas? Poucos pesquisadores se arriscam a dar palpites. O certo é que, ao se misturar com doentes, mendigos, gentis, prostitutas, enfim, toda classe de pessoas consideradas impuras, Jesus conseguiu incomodar a maioria dos grupos judaicos da época. Entre esses incomodados, se incluíam os fariseus, membros de uma escola religiosa que insistia na completa separação entre os judeus e os gentios (fariseu quer dizer "o que está separado"). Eram provavelmente hostis a Jesus e não deviam entender por que ele comia na mesma mesa dos "impuros" – se você leu os evangelhos, deve ter notado como os primeiros cristãos retratam os fariseus de forma pouco lisonjeira. Jesus provavelmente também não agradou saduceus, pequeno grupo judeu que não acreditava na imortalidade da alma nem nos anjos, muito menos nos milagres de Jesus.

"Seu estilo de ensinar e de viver desagradou muitos judeus, que o colocaram à margem do judaísmo palestino", diz o padre e historiador John P. Meier, no seu livro Um Judeu Marginal. "Mesmo sendo um galileu rústico que nunca freqüentou uma escola de escribas, ele ousou desafiar as doutrinas da época", diz Meier.

A escolaridade é outro ponto polêmico sobre a vida de Jesus – já que, para muitos historiadores, ele provavelmente era analfabeto. "Somente uma ínfima parcela da população que trabalhava para os governantes sabia ler e escrever", diz Richard Horsley. "Não acredito que ele fizesse parte dessa parcela." Então, como explicar o trecho do evangelho que o retrata lendo numa sinagoga? "A palavra ler no evangelho pode significar recitar", diz Horsley. "O fato de Jesus não saber ler nem escrever não significa que ele não conhecesse os textos e as tradições judaicas." Juan Arias, correspondente do jornal El País no Brasil e autor do livro Jesus, Esse Grande Desconhecido, discorda. "Apesar de ter vindo de uma família muito pobre, é difícil imaginar que as discussões polêmicas que ele teve com seus contemporâneos relatadas nos evangelhos possam ter sido feitas por um homem que não sabia ler", diz Arias.

Mesmo que não tenha sido analfabeto, o judeu pobre da Galiléia não deve ter chamado a atenção da elite intelectual da época. A não ser, talvez, pelos tumultos que deve ter causado quando resolveu pregar diretamente em Jerusalém, chegando a derrubar barracas dos mercadores que comerciavam no templo. O resto da história você conhece: para os romanos, apenas mais um agitador crucificado, nada anormal em meio a centenas de outras crucificações. Para um punhado de seguidores, o símbolo de uma nova fé que mudaria o rumo da humanidade.

De Jesus a Cristo

Imagine Nova York como o centro espiritual do mundo muçulmano. Ou mesmo a Basílica de São Pedro, no Vaticano, transformada numa mesquita dedicada ao profeta Maomé. Improvável, não? "Foi algo dessas proporções que aconteceu com a expansão do cristianismo", diz André Chevitarese. "Em cerca de três séculos, a crença de uns poucos seguidores se tornou a religião oficial do Império Romano, o mesmo império que havia ordenado a sua morte."

Como isso ocorreu?

Para os cristãos, a resposta é simples: Jesus ressuscitou. Essa seria a evidência de que o homem crucificado não era, afinal, apenas um homem e sim Cristo, o messias esperado pelo povo judeu. Mas como entender o evento da ressurreição? "Nenhum outro tipo de milagre se choca mais com a mentalidade cética da moderna cultura ocidental", diz o padre John P. Meier. Para ele, ficar especulando sobre o que aconteceu com o corpo de Jesus é, do ponto de vista da história, uma tarefa inútil. "A essência da crença na ressurreição é que, ao morrer, Jesus ascendeu em sua humanidade à presença de Deus", diz Meier. "Descobrir qual a ligação dessa humanidade com o seu corpo físico não é matéria dos historiadores."

Mas se a ressurreição é uma questão de fé e não de história, os estudiosos estão pelo menos conseguindo esclarecer detalhes sobre o terrível momento que a teria antecedido: a crucificação. Tudo começou em 1968, quando foi descoberto na região de Giv’at há-Mivtar, no nordeste de Jerusalém, o único esqueleto de um crucificado conhecido pela ciência. Depois que os ossos foram analisados pelos pesquisadores do Departamento de Antiguidades de Israel e da Escola de Medicina Hadassah, da Universidade Hebraica de Jerusalém, conclui-se que os braços não foram pregados, mas amarrados na travessa da cruz. Já as pernas do condenado foram colocadas em ambos os lados da base vertical de madeira, com pregos segurando o calcanhar em cada lado. Não havia evidências de que suas pernas haviam sido quebradas depois da crucificação para apressar a sua morte.

"O curioso é que uma revelação surpreendente sobre a morte na cruz não surgiu da descoberta de esqueletos, mas da falta deles", diz Pedro Lima Vasconcellos, da PUC de São Paulo. "Afinal, se centenas e até milhares de pessoas foram crucificadas na época, por que apenas um esqueleto foi encontrado?"

O historiador John Dominic Crossan diz que há uma razão terrível para isso: "As três penas romanas supremas eram morrer na cruz, no fogo e entregue às feras", diz Crossan. "O que as tornava supremas não era a sua crueldade desumana ou sua desonra pública, mas o fato de que não podia restar nada para ser enterrado no final." Apesar de ser fácil de entender por que não sobraria nada de um cadáver consumido pelo fogo ou devorado por leões, ele diz que a maioria das pessoas esquece que, no caso da crucificação, o corpo era exposto aos abutres e aos cães comedores de carniça. Como um ato de terrorismo de Estado, a extinção do cadáver também tinha como vantagem para as autoridades evitar que o túmulo do condenado se tornasse local de culto e resistência.

Mesmo que ninguém saiba o que ocorreu após a morte de Jesus (alguns historiadores acham razoável que a família e os amigos pudessem ter reivindicado o seu corpo), o fato é que seus seguidores passaram a relatar suas aparições. "Não se deve subestimar o poder dessas experiências em nome do racionalismo", diz Paulo Nogueira, professor da Universidade Metodista de São Paulo. "Afinal, as pessoas tinham visões, entravam em transe. É uma simplificação, por exemplo, ficar tentando encontrar razões sociológicas para explicar a experiência mística responsável pela conversão de Paulo."

Nascido na cidade de Tarso, na atual Turquia, Paulo (São Paulo, para os católicos) talvez seja o homem que, sozinho, fez mais pela expansão do cristianismo que qualquer outro dos seguidores de Jesus. O curioso é que, antes de se converter, ele era uma espécie de agente policial encarregado de perseguir os cristãos. "Sua conversão foi tão surpreendente na época como seria hoje ver um embaixador israelense se converter à causa palestina", diz Monica Selvatici, doutoranda em História da Unicamp e especialista em Paulo. "Suas idéias terminaram afastando o cristianismo do judaísmo da época."

Ela explica que, depois da morte de Jesus, não havia uma distinção clara entre judeus e cristãos. "Os seguidores de Jesus eram apenas judeus que defendiam a tese de que ele era o messias, ao contrário daqueles que não o reconheciam como tal", diz Mônica. "Eram uma ala do judaísmo, assim como o PT tem alas que não representam as idéias predominantes do partido." Como falava grego muito bem e foi um dos cristãos que mais viajaram, ele discordava dos judeus-cristãos que defendiam a tese de que os gentios convertidos precisavam seguir rigorosamente a lei judaica, incluindo aí a necessidade da circuncisão – não vista com bons olhos pelos estrangeiros. Em suas cartas (epístolas), são famosas as polêmicas travadas com Tiago (São Tiago, para os católicos), suposto irmão de Jesus, que teria sido um defensor de um cristianismo mais fiel ao judaísmo. Mas a idéia central de Paulo, resumida na frase de que "o verdadeiro cristão se justifica pela fé e não pelos trabalhos da lei", prevaleceu.

Os gentios podiam agora se converter sem tantos empecilhos e o cristianismo ganhou novas fronteiras. "Paulo ajudou a tirar de Jesus a imagem de um messias para o povo hebreu, transformando-o num salvador de todos os povos", diz Mônica. "Jesus deixou de ser um fenômeno regional para ganhar um caráter universal."

A influência de Paulo é tão grande, que há historiadores que chegam a dizer que o cristianismo como o conhecemos é, na verdade, um "paulismo". "Isso é um exagero", diz Paula Fredriksen, professora de estudos religiosos da Universidade de Boston e autora do livro From Jesus To Christ ("De Jesus a Cristo", inédito no Brasil). "Com ou sem Paulo, já havia um movimento forte entre os judeus cristãos de que os gentios não precisavam seguir estritamente as leis para serem salvos", diz Paula.

Mas o que levaria um cidadão romano a trocar os seus deuses para cultuar um judeu da Galiléia? (Lembrando que, na época da morte de Jesus, um cidadão romano sabia tão pouco sobre as várias correntes do judaísmo como um ocidental hoje sabe sobre as linhas do Islã.) "O cristianismo trouxe uma idéia de salvação da alma que não existia na religião romana", diz Pedro Paulo Funari, professor de história e arqueologia da Unicamp. "A religião romana tinha um aspecto formal, público, pouco ligado às inquietações da vida depois da morte". Mas Funari explica que, apesar do formalismo das crenças romanas, a idéia de salvação da alma já estava difundida na população pela influência de algumas religiões orientais, como o culto a Íris e Osíris, do Egito. "Isso deve ter facilitado ainda mais a expansão do cristianismo em Roma", diz Funari.

O ápice dessa expansão se deu quando o imperador romano Constantino converteu-se ao cristianismo, no século 4. Ninguém sabe ao certo se ele foi motivado mais por dilemas espirituais do que razões políticas (afinal, ao se converter, ele pôde contar com o apoio dos cristãos e com a estrutura de um Igreja já bem organizada.)

O certo é que alguns séculos depois, a cruz, imagem brutal da sua crucificação, foi usada para invocar a guerra e a paz entre os povos. E Yeshua, o judeu pobre que morreu praticamente despercebido durante a Páscoa em Jerusalém, já era conhecido por boa parte do mundo como o Cristo. O mesmo Cristo cujo nascimento passou a ser celebrado todos os anos, no mês de dezembro, no dia de Natal.

Quando os manuscritos do mar Morto foram encontrados nas cavernas da região de Qumran, no sul de Israel, em 1947, os pesquisadores descobriram como viviam os essênios – grupo de judeus que moravam em comunidades isoladas, tinham hábitos simples, admitiam a reencarnação, adotavam normas morais rígidas e eram vegetarianos. A seita desapareceu por ocasião da diáspora judaica, a partir do ano 70. E como eles, assim como Jesus, também se opunham a outros grupos como os fariseus e os saduceus, a pergunta óbvia que se seguiu foi: Jesus era essênio? Apesar de não existirem provas definitivas de que Jesus professasse a seita essênia, haveria ainda outras coincidências entre a doutrina e as práticas cristãs e os ensinamentos e costumes daquele grupo. "Os essênios foram os primeiros discípulos de Jesus e o aceitaram como o grande e último intérprete da lei, muito acima de Moisés", diz Fernando Travi, um dos líderes da Igreja Essênia brasileira.

Segundo ele, o próprio Cristo teria sido educado entre eles no monte Carmelo, no norte de Israel. Esse grupo, então conhecido como nazarenos, teria se diferenciado dos eremitas da região de Qumran – em cujas cavernas foram encontrados os polêmicos manuscritos do mar Morto –, por sua postura menos radical em relação a uma série de preceitos dos essênios do sul. Nos manuscritos de qumran não há nenhuma menção a Jesus, mas o que impressiona, segundo o arqueólogo inglês Lankester Harding, é a coincidência de práticas e terminologia antes julgadas exclusivas do cristianismo. Os essênios praticavam o batismo no estilo de João Batista e se reuniam para uma ceia litúrgica, de pão e vinho, como a que foi promovida por Jesus na véspera de sua prisão. Suas comunidades eram dirigidas por 12 "homens de santidade", à semelhança dos 12 apóstolos cristãos, e todos os bens individuais eram compartilhados, como foi hábito no cristianismo primitivo.

A identidade se repete em ensinamentos como o da não-violência e no costume de curar doentes, uma das principais práticas cristãs. Chama também a atenção o fato de não existir, nos evangelhos, qualquer crítica aos essênios, ao contrário dos ataques de Jesus aos fariseus e saduceus. Para alguns estudiosos, nada disso prova o vínculo essênio do Cristo. "Não existe nenhum fato ou indício convincente", afirma o doutor em teologia e especialista em Novo Testamento, Archibald Mulford Woodruff, da Universidade Metodista de São Paulo. "Há apenas paralelos entre os manuscritos do mar Morto e o evangelho, o que não chega a configurar uma influência essênia sobre Jesus." O mais provável, segundo Woodruff, é que muitos essênios tenham aderido ao cristianismo depois que a Décima Legião romana arrasou a comunidade de Qumran.

Na livraria

O Jesus Histórico, John Dominic Crossan, Imago, 1994

Excavating Jesus, John Dominic Crossan & Jonathan L. Reed, Harper San Francisco, 2001

Jesus, Uma Biografia Revolucionária, John Dominic Crossan, Imago, 1995

Jesus As a Figure in History, Mark Allan Powell, Westminster John Knox Press, 1998

Um Judeu Marginal, John P. Meier, Imago,1993 (série em quatro volumes)

Bandidos, Profetas e Messias Movimentos Populares no Tempo de Jesus, Richar A. Horsley, John S. Hanson, Paulus, 1995

Jesus – Esse Grande Desconhecido, Juan Arias, Objetiva, 2001

Cristo – Uma Crise na Vida de Deus, Jack Miles, Companhia das Letras, 2002

Os Homens da Bíblia, André Chouraqui, Companhia das Letras, 1990

História da Vida Privada – Do Império Romano ao Ano Mil, Philippe Ariès e Georges Duby (org.), Companhia das Letras, 1992

Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2002


"A marcha da maconha é legal"

O ministro do STF antecipa seu voto ao dizer que o cidadão tem o direito de defender sua posição em passeata


Fotos: roberto castro/ag. istoé; pedro ivo/ag. ist
A FAVOR
Para Mello, relator da ação de legalidade da droga, manifestação pública não é apologia

Quem visita o gabinete do ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello está acostumado a ouvir música clássica. O som de Franz Liszt é sua inspiração ao redigir os pareceres em processos sempre empilhados aos montes sobre as mesas, para tentar dar conta de um trabalho invencível. Aos 63 anos, sem esmorecer diante da infindável demanda jurídica, o ministro completa quatro décadas de dedicação ao que para muitos seria enfadonho ou repetitivo, mas, para ele, é paixão. Por isso é reverenciado no mundo jurídico. Ele não delega a redação de seus votos a ninguém e muitas vezes trabalha até as cinco horas da manhã. Homem de hábitos simples, um de seus maiores prazeres é comer hambúrguer no McDonald's.

Ao receber ISTOÉ, fez questão de demonstrar a revolta com o que está acontecendo no Senado. "Os atos secretos me preocupam não apenas como juiz, mas como cidadão desta República." Explicou que raramente aplica o sigilo aos processos dos quais é relator. Ao contrário, muitas vezes antecipa suas decisões. Revelou que votará a favor dos organizadores de passeatas pela descriminalização da maconha, acusados de apologia da droga. "Se o cidadão não pode expor seu argumento a favor do uso da maconha, ele está tendo o direito de opinião cerceado."

ISTOÉ - O que mais impressionou o sr. nesses 20 anos de Supremo Tribunal Federal? Celso deMello - A promulgação da Constituição em 1988 restabeleceu a confiança e a fé na excelência do regime democrático. Restabeleceram- se as liberdades públicas, suprimiram- se as restrições que até então haviam sido autoritariamente impostas e transformou-se o Judiciário num sujeito concretizador dos anseios que a Constituinte exprimiu. Deu-se ao Judiciário, e em particular ao STF, um poder excepcional. Veja o exemplo do mandado de injunção: foi o meio de que se valeu o STF para suprir omissões do Parlamento tão lesivas quanto as próprias ações do Poder Público que transgridem diretamente a ordem constitucional.

Houve um instante em que se criticou o denominado ativismo judicial do Supremo.

ISTOÉ - Há quem diga que a Constituição foi longe demais, pois havia grande peso de ideias progressistas. Seria necessária, então, uma revisão constitucional.
Mello - Melhor fora se a Constituição do Brasil fosse sintética e não analítica. Isso gerou uma situação que levou o professor Miguel Reale (jurista), tão logo foi promulgada a Carta, a apontar para a existência de um "totalitarismo normativo".

ISTOÉ - O ideal seria uma Constituição sucinta como a americana?
Mello - Eu diria uma Constituição mais sintética, como a que tivemos em 1891. Proclama-se que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado, mas estamos nos defrontando diariamente com problemas de acesso do cidadão aos medicamentos e a práticas cirúrgicas. Até que ponto, considerada a cláusula da reserva do possível, já que o cobertor é pequeno, o Judiciário pode implementar políticas públicas ditadas pela Constituição na área da saúde?

Fotos: roberto castro/ag. istoé; pedro ivo/ag. ist
O cidadão deve exigir que os administradores sejam íntegros, os juízes incorruptíveis e os legisladores probos e honestos"

ISTOÉ - O sr. se refere a casos em que o Estado não cobre um tratamento?
Mello - Sim. Fui relator de muitos processos oriundos do Rio Grande do Sul contra o Estado, sob a administração petista, e contra o município de Porto Alegre, também sob a administração petista. Estado e município negavam aos seus cidadãos o acesso a medicamentos para portadores do vírus HIV. Muitas vezes eram pessoas desprovidas de recursos financeiros e o acesso ao Judiciário representava a diferença entre a vida e a morte. O STF reconheceu os recursos.

ISTOÉ - Outro caso que provocou muita polêmica nesses últimos anos do STF foi a taxação dos inativos.
Mello - Fui o relator da primeira ação direta de inconstitucionalidade dessa tributação, porque a contribuição previdenciária é um tributo. Entendemos que era inconstitucional a lei votada no governo Fernando Henrique, que impunha essa contribuição. Posteriormente, já no início do governo Lula, foi promulgada uma emenda à Constituição. No meu voto, eu dizia que uma lei não pode contrariar a Constituição, impondo novo desconto a quem já contribuiu e, em função de sua contribuição, obteve o benefício previdenciário. No segundo instante promulgouse a Emenda Constitucional 41. E eu fiquei vencido num longo voto.

ISTOÉ - O sr. acha a taxação dos inativos injusta?
Mello - A contribuição dos inativos é injusta porque o cidadão contribuiu durante o seu período de vida útil e agora sofre nova tributação quando deveria ter acesso integral ao benefício. O fato de o meu voto ter sido vencido não significa nada. Muitas vezes no voto vencido está plantada a semente para depois alterar a jurisprudência.

ISTOÉ - O inativo também não recebe reajuste igual ao das categorias de funcionários ativos.Mello - Embora devesse, porque a Constituição construiu um modelo de seguridade social que envolve três domínios distintos: o da saúde, o da assistência e o da previdência social. Em relação à saúde e à assistência, não há contribuição. Num acidente, a pessoa é levada ao hospital público e não precisa remunerar o hospital. A saúde não exige contribuição, a assistência não exige, mas a previdência exige.

ISTOÉ - Em que outros casos o sr. acha que o STF se equivocou?
Mello - Lembro-me que em 1989 surgiu a discussão em torno da fidelidade partidária. A exigência de fidelidade poderia ser imposta aos parlamentares eleitos ou os "trânsfugas" poderiam se beneficiar dessa verdadeira migração partidária, naquilo que o Flávio Bierrembach chamou de "turistas de legenda". O STF entendeu naquele momento que a fidelidade não gerava perda do mandato, fomos vencidos eu e o Paulo Brossard (ex-ministro). Passaram- se quase duas décadas e fui relator da mesma matéria. Coincidentemente, quem fez a sustentação oral em favor de que o desrespeito à fidelidade partidária gera a perda do mandato foi o ex-ministro Brossard como advogado. O tribunal, por 9 votos a 2, sufragou.

ISTOÉ - Nesses 20 anos de STF, qual foi o caso mais folclórico?
Mello - Uma questão penal envolvendo duas médicas do interior de São Paulo. O cachorro de uma delas comeu o gato da outra. Isso gerou um conflito de vizinhança que acabou provocando um ilícito penal que veio ao STF. Um caso patético.


O significado de “This is it”

A nova canção de Michael Jackson, “This is it” - lançada oficialmente hoje no site do cantor - é a prova de que o músico planejava um retorno em grande estilo aos palcos. Jackson morreu em Los Angeles em 25 de junho, aos 50 anos, quando encerrava os ensaios do show que levaria o nome da música. O material dos ensaios, realizados no Staple Center em Los Angeles, foi editado como longa-metragem, com estreia marcada para o próximo dia 28. Com o show, todo tipo de material promocional, inclusive o CD duplo com 20 faixas, todo de regravações. A exceção é “This is it”. Outra canção, “Shake your body (down the ground)”, foi lançada em 1976 e permaneceu desconhecida. O espetáculo seria uma espécie de adeus de carreira.

“This is it “ é a melhor canção de Jackson desde “Black or white”, lançada em novembro de 1991. E talvez representasse uma volta às origens. A música tem um arranjo leve, no estilo que Michael adotou no início de sua carreira. Os vocais remetem a “Rock with you”, do LP Off the wall, de 1979. A linha melódica é simples, a harmonia sem firulas e o refrão pega na hora no ouvido, como uma canção clássica da soul music. Não para menos. A música foi composta em 1976 por Jackson em parceria com Paul Anke, autor de “Diana”. Anka não foi creditado no CD, e está reclamando.

É mais uma vez uma balada de amor, com um toque messiânico (leia letra abaixo). “É isso aí, aqui estou/ Sou a luz do mundo, me sinto tão bem/ E tenho esse amor que posso sentir/ E eu sei que é real”. Esses versos tanto remetem ao amor terreno quanto ao divino. Será que Michael Jackson ainda tinha muito a mostrar? Ele realmente foi surpreendido pela morte, que tolheu o seu futuro como artista. Ouça e opine.

Confira a letra de “This is it”, de Michael Jackson

“This Is It” (Michael Jackson)

This is it, here I stand
I’m the light of the world, I feel grand
Got this love I can feel
And I know yes for sure it is real

And it feels as though I’ve seen your face a thousand times
And you said you really know me too yourself
And I know that you have got addicted with your eyes
But you say you gonna live it for yourself.

I never heard a single word about you
Falling in love wasn’t my plan
I never thught that I would be your lover
C’mon baby, just understand

This is it, I can say,
I’m the light of the world, run away
We can feel, this is real
Every time I’m in love that I feel

And I feel as though I’ve known you since 1,000 years
And you tell me that you’ve seen my face before.
And you said to me you don’t wnat me hanging round
Many times, wanna do it here before

I never heard a single word about you
Falling in love wasn’t my plan
I never thught that I would be your lover
C’mon baby, just understand

This is it, I can feel
I’m the light of the world, this is real
Feel my song, we can say
And I tell you I feel that way


Marionetes gigantes tomam conta de Berlim

A companhia francesa Royal de Luxe inverte o significado do símbolo que representa um títere. Fundada em Nantes em 1979 por Jean Luc Courcoult, a companhia vem impressionando milhões de pessoas em todo o mundo com suas marionetes gigantes. Elas caminham pelas ruas, parecem ter personalidades ímpares, desejos próprios e travar diálogos imaginários - os humanos, por sua vez, é que são os comandados por cordas invisíveis, capazes de manter os queixos caídos e os olhos arregalados enquanto assistem maravilhados às performances surrealistas.

Confira algumas imagens da “Reunião em Berlim”, ocorrida entre os dias 2 e 4 de outubro na capital alemã em comemoração aos 20 anos da queda do Muro. É torcer para esse universo mágico também pairar por aqui.

A Pequena Mulher Gigante passeia pela multidão - PHILIPP GUELLAND/AFP/Getty Images

A Pequena Gigante passeia pela multidão - PHILIPP GUELLAND/AFP/Getty Images

Na Rua Friedrich - DAVID GANNON/AFP/Getty Images

Na Rua Friedrich - DAVID GANNON/AFP/Getty Images

Usando uma capa de chuva amarela - AP Photo/Maya Hitij

Usando uma capa de chuva amarela - AP Photo/Maya Hitij

O Grande Gigante a a Pequena Mulher Gigante diante do Portão de Brandenburg - AP Photo/Maya Hitij

O Grande Gigante a a Pequena Mulher Gigante diante do Portão de Brandenburg - AP Photo/Maya Hitij

se

Lady Gaga copiou Claudia Leitte?

Finalmente foi divulgada a nova capa do CD de Lady Gaga! Os fãs já estavam aflitos! Porém, o mais curioso é que a pose da cantora é muito parecida com uma foto de Claudia Leitte, uma das musas do axé baiano.

E não é que parece mesmo? A única diferença é que Gaga não enviou um litro de leite da fazenda para promover o CD como fez a brasileira…

Mas será que a cantora americana, cansada de se inspirar em Madonna e Britney Spears, andou passeando pelo site oficial da brasileira, onde a foto foi publicada há tempos? Acho difícil, mas, em se tratando de Gaga, tudo poder ser…

Ela é especialista em criar polêmicas. A lista é interminável. As mais recentes: fez um vídeo em que aparece nua para divulgar as apresentações que faria ao lado do rapper Kanye West; encarnou John Lennon (com óculos e tudo) para cantar “Imagine” em um jantar em Washington; usou um vestido feito com cabelo humano no prêmio Mulheres do Ano da Billboard.

No último domingo, dia 11, foi convidada a fazer o discurso inaugural da Parada Gay de Washington. Em seu texto, afirmou que não ia tolerar preconceito com os homossexuais e gritou: “Obama, eu sei que você está nos ouvindo. Você está ouvindo?”.

Isso sem falar nos figurinos e perucas bizarras com os quais costuma aparecer em público. Tudo muito estranho. Mas a menina tem feito sucesso. Aos 23 anos, já tem uma legião de fãs e foi eleita a cantora revelação do VMW, prêmio distribuído pela MTV americana.

Agora, estranheza por estranheza, confesso que prefiro pessoas mais autênticas. Amy Winehouse e seu vício em drogas. Whitney Houston e seu problema com a bebida. Britney e sua briga com a balança. E, claro, Madonna, a maior artista pop de todos os tempos, que há anos costuma criar polêmicas capazes de deixar qualquer uma delas no chinelo.

Aliás, Madonna diz na edição da revista Rolling Stones desse mês que Gaga é sua seguidora “Revejo-me na Lady GaGa. Quando a vi, ela não tinha muito dinheiro para a sua produção, tinha buracos nas meias e havia erros em todo o lado. Era uma grande confusão, mas consigo ver que ela tem o factor x . É bom ver isso numa fase tão crua”.

A primeira vez que escutei o nome de Lady GaGa, no ano passado, ignorantemente, não sabia do que se tratava. Achei que fosse aquela personagem do programa Zorra Total, da TV Globo, que tem o bordão “tô pagano”. Mas, não. Aquela é Lady Kate! Hoje, escuto seu nome diariamente. Ela não sai das manchetes de sites e revistas!

Mas acredito que ela tenha seus méritos, sim. Não deve ser fácil ser Lady Gaga. É preciso ter muita ousadia e originalidade.


A fama e a ressaca

O delegado Carlos Alberto Delaye, do 92º DP de São Paulo, teve seus minutos de fama na terça-feira 6. Uma foto em que aparece fantasiado de caubói e segurando uma garrafa de cachaça que levava no rótulo o número 92 foi publicada nos principais jornais do País. No dia seguinte, veio a ressaca. Ele foi afastado do cargo pela Corregedoria da Polícia Civil por ter usado o número da delegacia para confeccionar rótulos. Ele se justificou dizendo que não comercializava as bebidas, apenas presenteava amigos. A Secretaria de Segurança Pública informou que a conduta do policial será apurada e, caso não seja detectada infração disciplinar, ele será restituído ao cargo

Precisão inacreditável

Pesquisadores egípcios garantem ter descoberto a data exata do início da construção da pirâmide de Quéops. Há controvérsias



FOTO: BENEDA MIROSLAV; MOHAMMAD AL SEHETY/AP
PIRÂMIDE DE QUÉOPS Questiona-se a motivação por trás do estudo realizado no Egito

Vinte e três de agosto de 2470 a.C. Eis a data do início da construção da pirâmide de Quéops, segundo estudo divulgado na semana passada e conduzido por um time de arqueólogos e astrônomos egípcios. Erguida para ser a morada final do faraó de mesmo nome, a edificação é a última remanescente das sete maravilhas do mundo antigo e a maior entre as três pirâmides de Gizé - Quéfren e Miquerinos estão localizadas ao seu redor, nas cercanias da atual cidade do Cairo.

Os pesquisadores, liderados por Abdel-Halim Nur El-Din, ex-chefe do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, chegaram a essa conclusão depois de uma complexa viagem no tempo. Por meio de modelos criados em computador, os astrônomos são capazes de simular a posição dos astros em qualquer data do calendário - no passado, no presente e no futuro.

Como os faraós costumavam iniciar suas obras no primeiro ano de seus reinados, sempre 35 dias depois do aparecimento da estrela Sirius no horizonte, os arqueólogos fecharam a conta e determinaram que Quéops (ou Khufu, para os egípcios) teria iniciado a construção exatamente naquela data.

O problema é que tal teoria e as razões que motivaram a pesquisa são altamente questionáveis.

"Todas as datas anteriores a 600 a.C. são incertas quando se fala de Egito. Todos os faraós zeravam o calendário ao começarem seus reinados, o que leva a uma imprecisão enorme", diz Antônio Brancaglion, egiptólogo e professor do Museu Nacional da UFRJ.

FOTO: BENEDA MIROSLAV; MOHAMMAD AL SEHETY/AP
"Os egípcios zelam pela preservação. Os estrangeiros só escavam em busca de novas descobertas" Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito

Ele concorda em parte com a teoria dos pesquisadores egípcios, mas afirma que é praticamente impossível cravar o ano em que Quéops chegou ao poder. Além disso, não há garantias de que a grande pirâmide tenha sido a primeira a ser erguida em seu reinado. "Teríamos de conseguir indícios e fontes históricas mais confiáveis para afirmar algo assim. Infelizmente, quase todos os registros desapareceram", diz Brancaglion. Ele lembra que algumas informações sobre a construção da pirâmide foram gravadas pelos operários em seus blocos de calcário, mas nenhuma data pode ser determinada com certeza absoluta. Por outro lado, outros especialistas já levantaram mais um problema técnico: e se a noite inicial do ciclo visível de Sirius no primeiro ano do reinado de Quéops tiver sido nublada? Tal distorção poderia ter adiado os trabalhos facilmente em um dia ou mais.

A relação entre civilizações antigas e Sirius, a mais importante estrela da constelação de Cão Maior, é notória. Além dos egípcios, o astro mais brilhante do céu noturno fascinava gregos, romanos e polinésios, entre outros. Seu reaparecimento, depois de 70 dias de ausência anual, era celebrado com rituais e cerimônias repletas de simbolismo. No Egito antigo, o retorno de Sirius marcava o início de um novo ano e indicava a chegada da estação das chuvas, além do aumento no nível das águas do rio Nilo.

Há tempos a atual postura dos egípcios em relação a seu patrimônio histórico tem sido alvo de críticas por parte da comunidade arqueológica mundial. O maior motivo para tanto é a atuação do polêmico Zahi Hawass, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades do Egito, o mesmo que exigiu o retorno ao país de relíquias expostas em museus europeus, como o busto de Nefertiti, a Pedra de Roseta e o obelisco do templo de Luxor. Hawass também é criticado por tentar proibir novas escavações de grupos estrangeiros e pela sua aparição excessiva em documentários para a tevê, nos quais quase sempre é a maior estrela. O mundo espera que o novo estudo egípcio não tenha sido apenas mais uma tentativa de se fazer muito barulho por nada.



Robespierre, o paranoico

Megalomaníaco, o maior tirano da Revolução Francesa tinha pavor de ser assassinado e preocupava-se em excesso com os trajes que usaria ao assinar atos capitais


Sempre que precisava falar em público, Maximilien Robespierre (1758-1794) sofria com contorções compulsivas nas mãos e na face e exibia um manuseio descontrolado dos óculos. A sua insegurança e timidez juvenis, assim como os maneirismos nervosos, o acompanharam na idade adulta e tornaram-se marca registrada do sanguinário tirano, que se autoproclamou "O incorruptível" e foi o idealizador do regime de terror, durante a Revolução Francesa.


O temperamento reservado, no entanto, ocultava uma personalidade vaidosa e megalomaníaca que acreditava ter o legítimo direito de legislar sobre vidas alheias. Ele assinou de próprio punho nos últimos cinco meses que esteve no poder 2.217 sentenças sumárias de execução - todas as vítimas eram acusadas de conspirar contra a Revolução. Mas a sua vaidade legislava também em questões mais prosaicas: a alfaiataria. Ele apreciava os coletes com bordados elaborados, suas roupas eram bem cortadas, o cabelo cuidadosamente arrumado e sempre usava o mesmo modelo de óculos que deveriam ter lentes esverdeadas.

Robespierre é ainda hoje uma das mais controversas personalidades da história da Revolução Francesa. Entre renomados historiadores, há quem defenda que ele foi bode expiatório dos revolucionários e que era um dos homens mais íntegros entre eles. Outros, que Robespierre forneceu as bases legais para o surgimento de um Estado moderno autoritário - e que os últimos dois séculos estão fartos de exemplos desse seu legado político. A historiadora inglesa Ruth Scurr, em seu recém-lançado livro "Pureza Fatal - Robespierre e a Revolução" (Record), concede ao biografado o benefício da dúvida. Ela narra a trajetória de Robespierre, de advogado provinciano a líder revolucionário influente, obcecado por justiça e que tinha um medo paranoico de ser assassinado.

Toda a arquitetura do regime de execuções sumárias, sem direito à defesa, criada por Robespierre foi movida pelo pânico que ele vivia de sofrer represálias por parte dos "não patriotas", forma como ele se referia aos críticos do regime. Segundo a autora, Robespierre encerrava uma grande contradição: autor de diversos discursos contra a pena de morte, ele criou uma lei para aplicá-la a quem considerava suspeito. Para Robespierre todos os suspeitos constituíam um risco de vida eminente a sua pessoa e à Revolução. Na avaliação que faz dos dois últimos anos de vida do "Incorruptível", Ruth retrata um homem que, pode ter sido, de fato, incorruptível em sua vida privada, mas corrompeu-se profundamente no poder. E mostra como os mais nobres princípios podem facilmente se transformar num fanatismo letal.


Na trilha de Villa-Lobos

Uma série de eventos rende homenagens ao maior músico brasileiro no cinquentenário da sua morte


A fora uma ou outra rara lembrança, o nome de Heitor Villa-Lobos, por muito tempo, não passou de um verbete de enciclopédia para muitos brasileiros. Nos últimos anos, os jovens tiveram poucas chances de ter acesso à obra do músico, reconhecido pelos especialistas como um dos maiores do mundo.

"Ele foi certamente um dos poucos gênios do século XX", resume o maestro João Carlos Martins, que, no início do mês, foi aplaudido de pé no Lincoln Center, em Nova York, ao executar duas obras do mestre. Ironicamente, por conta das homenagens prestadas a ele no cinquentenário de sua morte, Villa-Lobos renasce.



O maior desses eventos programados no País é a exposição que começa na segunda-feira 12 no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, "Viva Villa!". Partituras, documentos, instrumentos musicais e outros objetos do artista estarão expostos em meio a instalações de áudio e vídeo.

Cinco vagões de trem cenográficos servirão de ambiente para contar sua história, e está prevista uma intensa programação de concertos. "É a maior exposição já feita no Brasil sobre uma só pessoa", afirma Fabiano Canosa, curador do evento, que levou três anos garimpando material e planejando a mostra.

Não custa lembrar, agora que o ensino de música passa a ser obrigatório nas escolas, que Villa- Lobos foi um dos maiores incentivadores desse tipo de aula, através dos cantos orfeônicos. O maestro teve as primeiras lições de música clássica com o pai, Raul, e aprendeu a tocar violão sozinho, em meio às rodas de choro cariocas.

A mistura de erudito e popular acabaria por se transformar na marca de sua obra, já que suas composições eram inspiradas não somente no samba e no chorinho, mas também em sons de origem indígena e africana. "Essa influência da música do povo pode servir de ponte para que as novas gerações passem a se interessar por concertos", afirma Canosa. Por causa dessa inovação, na época Villa foi rechaçado no meio acadêmico.

Mas uma visita do pianista polonês Arthur Rubinstein ao Brasil, em 1918, proporcionou a oportunidade de mostrar seu trabalho em Paris, onde começou seu reconhecimento internacional. Daí em diante, o sucesso foi crescente. Após sua morte, em 17 de novembro de 1959, a divulgação de suas obras passou a declinar.

"Geralmente, o gênio é reverenciado em seu próprio território, mas por muito tempo os governos brasileiros parecem ter perdido a memória", critica o maestro Martins. "Acredito que isso começa a ser retomado agora." Espera-se que, passada a efeméride, o resgate continue

A vida do mestre

O maestro Heitor Villa- e o popular Lobos nasceu no Rio de Janeiro, em 5 de março de 1887. Aos 18 anos, viajou pelo Nordeste, se encantou com os violeiros e incorporou o som das cantigas nordestinas, samba e choro às suas musicas. Em 1930, compôs a primeira música de sua famosa série, as "Bachianas". Ao ter um câncer diagnosticado, em 1948, foi operado em Nova York e morreu 11 anos depois.


Pavor delicioso no cinema

Acabo de assistir a um filme muito bom: “Deixe ela entrar.” As resenhas que a imprensa tem publicado são muito elogiosas. O filme merece.

Não quero estragar as surpresas a que todo espetactador tem direito — e elas são muitas. Quem leu os jornais sabe que se trata de um filme sobre vampiros, uma tradição que o cinema cultiva desde seus primórdios.

Não vou dizer mais porque determinadas descobertas tem sua hora e seu ritmo, e alimentam as emoções únicas que este filme provoca.

Muitas cenas provocam momentos de um pavor delicioso. Há imagens fortes, que permanecem na memória depois que o filme terminou.

O grande mérito de “Deixe ela entrar” é revigorar um mito antigo e tradicional trazendo-o para a sociedade de hoje, com famílias desarrumadas, agressões gratuitas, e uma postura quase indiferente ao sexo.

Temos um vampiro de pés e mãos sujas, que leva uma vida pobre, no limite da miséria, entre homens, mulheres e crianças que sobrevivem num ambiente de fartura que alcança quase todo mundo. Não há o glamour nem a nobreza do velho Conde Drácula. Num mundo de cidadãos loiros, de pele clara, o vampiro tem cabelos negros e espessos, pele morena.

Tomas Alfredson, o diretor, conduz uma narrativa delicada e sensível, que sabe ser crua e brutal quando necessário. Na velocidade de quem procura mostrar o que é importante, o filme não tem pressa. Descreve com cuidado o cotidiano dos personagens. Espera a história amadurecer e deixa cada situação atingir seu ponto máximo.

O resultado é um filme que não perde o ritmo e desembrulha o enredo com suspense até o final. Permite várias leituras de uma mesma cena. Inspira discussões psicanalíticas e interpretações variadas para cada personagem e seu destino. E é, acima de tudo, bom cinema.


Você sabe que "Bastardos Inglórios" é um filme do Tarantino porque...


Sejamos diretos: “Bastardos Inglórios” é genial. Mesmo! A gente até pode definí-lo com outras palavras como “surpreendente”, “bizarro” ou “controverso”, mas fiquemos em genial, que é uma junção desses adjetivos todos. A trama conta a historia dos Bastardos, um grupo de judeus americanos que pretende derrubar o nazismo. Mas não vá pensando que “Bastardos” é um filme histórico. Se os fatos tivessem se desenrolado de acordo com o roteiro do filme, o mundo seria bem diferente hoje em dia (e coisas como direitos humanos jamais existiriam, mas tudo bem).

Quem já assistiu a outras obras de Quentin Tarantino sabe que o diretor e roteirista tem lá suas particularidades. No novo filme, Tarantino optou por algumas fórmulas antigas de sucesso e misturou-as com elementos completamente originais – o que por si só é uma fórmula de sucesso antiga, é claro. O próprio título do filme, no original “Inglorious Basterds”, é uma piada interna. Segundo o diretor, a grafia correta da palavra Bastards simplesmente não combina com a história.

Pois é, nem tudo é perfeitamente coerente em “Bastardos Inglórios”. Então, quando você estiver sentado na cadeira do cinema, com o olhar vago, se perguntando como-meu-Deus-do-céu a cabeça do roteirista chegou a esse ponto, lembre-se que você está assistindo a um filme do Tarantino. E você sabe que Bastardos Inglórios é um filme do Tarantino porque...

... tem violência. Muita. Muita mesmo;

... Brad Pitt é descendente de índios Apache e arranca o escalpo de seus inimigos – e essa é a parte mais provável da trama;

... a trilha sonora do filme parece saída de um bangue-bangue;

... há muito sangue envolvido em todas as cenas, mas mesmo assim você morre de rir;

... as autoridades são alvo de piadas constantes;

... o maior vilão é também o personagem mais divertido de todos (Christopher Waltz faz falta quando não aparece);

... os caras maus existem e são realmente maus;

... não há mocinhos, bem ou mal: há carisma;

... o jeito de falar de cada personagem é super trabalhado e caricato;

... não existe qualquer compromisso com mitos, contexto histórico ou “dogmas políticos”, por assim dizer – você pode ver Joseph Goebbels chorando de emoção depois de receber um elogio direto do Führer;

... apesar de escrachada, existe uma aura solene, de filme antigo, rondando a produção;

... todos os personagens falam mil línguas, exceto os americanos. É claro.

“Bastardos Inglórios” é um daqueles filmes enormes que você topa do começo ao fim. É maluco? É. É fiel à História? Nem um pingo. Mas essa é a graça de um diretor que só soube inovar na própria carreira. Assista, se surpreenda e ria de todas as piadas de humor negro sem o menor peso na consciência. É por isso que elas estão lá, afinal de contas.


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