Como o divórcio mais polêmico dos EUA afeta você




Você sabe quem são os Gosselin? Eles são o casal do momento nos Estados Unidos. Ou melhor, o ex-casal. Pais de oito filhos – duas gêmeas de 9 anos e sêxtuplos de 5 anos – eles estrelam desde 2007 o reality show “Jon & Kate Plus 8” (Jon e Kate mais 8), exibido no Brasil pelo canal fechado Discovery Home & Health. Mas nunca fizeram tanto sucesso quanto nesta última temporada. Em junho, eles anunciaram em um episódio especial de 1 hora que estavam se divorciando. E olha que esse foi o capítulo mais decente de todo o processo de separação.

Dos rumores à confirmação, os Gosselin estampam semana após semana capas de revista americanas (até agora foram mais de 50) com cada lance do fim de seu casamento. Kate diz que foi Jon quem quis terminar. Ele diz que foi ela. O público especula quem traiu primeiro. Teria Jon se entregado à vida boêmia depois que se levantou a hipótese de Kate o ter traído com o segurança do casal, Steve Neild? Ou Kate teria passado a desprezá-lo porque Jon se cansou da rotina maluca de uma família com oito crianças? Quem acompanha o programa nota a tensão entre o casal desde os primeiros episódios. Nos depoimentos conjuntos de Kate e Jon, que servem como linha narrativa de cada capítulo, Kate quer falar mais do que o marido. Manda ele ficar quieto. Dá tapinhas. Jon tenta se defender. Mas é visível que, ao passar de cada temporada (já estamos na quinta), Kate se sente cada vez mais à vontade em frente das câmeras. E Jon, mais desconfortável com a situação.

Os últimos desdobramentos do caso incluem Kate chorando em programas de entrevista (ainda com a aliança no dedo. “Pelos filhos”, ela diz), acusações de quem ficou com o dinheiro (Kate acusa Jon de ter limpado a conta conjunta do casal) e o anúncio de que Jon estaria sendo processado pela rede de televisão que produz o programa, a TLC (ele se recusa a aparecer nas próximas temporadas). Por hora, o programa deve passar a se chamar “Kate Plus Eight” e promete altas audiências na próxima temporada, que começa em 9 de novembro. O porquê é difícil de entender: existe situação mais chata do que ver briga de casal? Por que é, então, que o assunto desperta tamanho frenesi nas pessoas, a ponto de se tornar o assunto mais comentado nos Estados Unidos, que passa pela pior crise econômica das últimas décadas? E esse não é o primeiro divórcio que mobiliza a opinião pública (Confira a galeria dos divórcios mais polêmicos dos últimos tempos logo abaixo).

Eu,não deveria estar pensando nesse assunto. Mas fiquei tão intrigado com a importância que as pessoas dão ao divórcio dos outros que resolvi perguntar ao terapeuta de casais Amaury Mendes Junior qual é a explicação para esse fenômeno. “É mais fácil olhar para os outros do que para nós”, ele me disse. “Quando projetamos situações e defeitos nas outras pessoas, é como se quiséssemos dizer para nós mesmos que aquilo é normal, que também acontece com os outros.” Em resumo, nos importamos com o divórcio dos outros porque não queremos que isso aconteça conosco. É claro que passar pelo desgaste de uma separação não é nada agradável. Ninguém quer ver desaparecer um plano de vida traçado a dois com tanto carinho.

O pavor em relação ao divórcio revela um paradoxo. O discurso politicamente correto aceita o divórcio como algo natural, defende que é melhor acabar com o casamento para que ambos possam ser felizes. Mas a pressão da sociedade ainda diz que o certo é permanecer junto “até que a morte os separe”. “Essa pressão está em todo lugar. É só reparar”, diz Amaury. “O porteiro do prédio trata com mais respeito a mulher com uma aliança no dedo.” O resultado dessa pressão é que as pessoas estão mais preocupadas em cumprir o papel que elas acreditam designado a elas – casar, ter filhos e envelhecer – do que criar vínculos verdadeiros com alguém. Igualzinho no tempo da minha avó. Só que no século XXI. “Daí as pessoas casam e depois se separam”, diz Amaury.

Se as pessoas pensassem no divórcio como uma possibilidade natural e não um tabu, talvez se lembrassem de que para manter um casamento é necessário cuidado e dedicação (a afetividade do dia a dia, a sexualidade afiada debaixo dos lençóis e os objetivos comuns a longo prazo). E, com uma relação bem-cuidada, talvez as chances de passar pelo desgaste da separação diminuam. É por isso que eu já decidi: vou me casar pensando no divórcio (e que o padre e a minha mãe não leiam isso!).


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